No livro Mar de dentro, de Lya Luft (editora Arx, 2002), li um episódio vivido pela autora na sua infância aqui em Santa Cruz do Sul, lá pelos meados dos anos de 1940, envolvendo uma benzedeira afro-descendente chamada Dona Negrinha, à qual até mesmo a elite da cidade recorria quando, nas palavras da escritora, “as mulheres da casa não acreditavam mais na medicina”. Além de aspectos que remetem à busca de “soluções mágicas” tidas como impróprias a “pessoas urbanizadas” – e por isso mesmo, penso eu, escamoteadas nos “registros históricos oficiais” –, há, na narrativa da autora, elementos interessantíssimos para pensar a inserção sociocultural da população negra na "toda germânica" Santa Cruz – ainda mais explicitamente do que pode ser vislumbrado no seu romance A asa esquerda do anjo. (Observe-se que Mar de dentro é um livro de memórias; uma autobiografia; diferente de uma obra de ficção. Embora, em minha concepção, o “filtro e a verve literárias” não retirem o valor de um escrito como elemento para compreensão da sociedade. Muitas vezes, pelo contrário: a sensibilidade artística pode ser um aliado no desvelamento de meandros das relações humanas grupais. Como se refere outra escritora magistral, Lygia Fagundes Telles, justamente a respeito da sua colega Lya Luft: “conseguiu ela criar uma obra que é documento social e arte”.)
A abrangência dos serviços da Dona Negrinha, com certeza, se estendiam a diversas famílias santa-cruzenses de todas as classes. Os "bruxedos" da velha senhora negra, moradora em um casa, “quase um barraco”, como lembra a autora nascida em Santa Cruz do Sul em 15 de setembro de 1938, deviam ser afamados. Lya diz que, ao final do ritual, se sentiu “renascida, protegida, para sempre salva”. “As roupas que lhe levavam retornavam com o odor de ervas e fumaça, mas docilmente eu deixava que me vestissem com elas, certa de que já estava curada”, complementa, numa outra recordação da meninice da hoje madura e prestigiada cronista da revista Veja.
Esta amorosa consideração em Mar de dentro, que começa lá na página 76, são indicações de que a presença e influência de personalidades e, mais amplamente, da cultura negra em Santa Cruz do Sul não foram, nem são desprezíveis como muitas vezes se tenta fazer entender. Os saberes curativos oriundos de um África ancestral, passados de geração em geração desde a chegada dos primeiros trabalhadores negros no Brasil, dominado por humildes xamãs – caso desta Dona Negrinha lembrada por Lya –, estavam, já antes dos conturbados tempos da 2ª Guerra Mundial, consolidados na vida social de uma crescente cidade interiorana de forte presença alemã, fundada a partir do povoado denominado Faxinal do João de Faria – aliás, uma referência (pouco considerada) ao sesmeiro em cujas terras "numerosos escravos" labutavam, conforme registra José Bitencourt de Menezes, em seu basilar Município de Santa Cruz, brochura escrita em 1911.
Os vários templos e milhares de pessoas adeptas, que têm – mesmo que esporadicamente – nas cerimônias, rituais e procedimentos religiosos de matriz africana em Santa Cruz do Sul uma fonte de ligação com os aspectos transcendentes e busca de alívio a agruras humanas, afirmam que a pluralidade cultural e a influência afro são fatos incontestáveis. A identidade santa-cruzense, para além de estereótipos, é, desde os primórdios da comunidade, multifacetada, híbrida, produto de diversas contribuições, numa conjunção enorme de fatores e gentes. Isso deveria impedir simplificações e, como aponta o professor Mário Maestri, mitificações – mesmo que para “efeitos turísticos” – que levam a menosprezar determinados grupos étnicos na hora de contar a história do município.
Iuri J. Azeredo
*O texto foi escrito originalmente em 2005 e saiu na imprensa santa-cruzense.
23 de fevereiro de 2009
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