23 de fevereiro de 2009

A África ancestral no mar de dentro santa-cruzense

No livro Mar de dentro, de Lya Luft (editora Arx, 2002), li um episódio vivido pela autora na sua infância aqui em Santa Cruz do Sul, lá pelos meados dos anos de 1940, envolvendo uma benzedeira afro-descendente chamada Dona Negrinha, à qual até mesmo a elite da cidade recorria quando, nas palavras da escritora, “as mulheres da casa não acreditavam mais na medicina”. Além de aspectos que remetem à busca de “soluções mágicas” tidas como impróprias a “pessoas urbanizadas” – e por isso mesmo, penso eu, escamoteadas nos “registros históricos oficiais” –, há, na narrativa da autora, elementos interessantíssimos para pensar a inserção sociocultural da população negra na "toda germânica" Santa Cruz – ainda mais explicitamente do que pode ser vislumbrado no seu romance A asa esquerda do anjo. (Observe-se que Mar de dentro é um livro de memórias; uma autobiografia; diferente de uma obra de ficção. Embora, em minha concepção, o “filtro e a verve literárias” não retirem o valor de um escrito como elemento para compreensão da sociedade. Muitas vezes, pelo contrário: a sensibilidade artística pode ser um aliado no desvelamento de meandros das relações humanas grupais. Como se refere outra escritora magistral, Lygia Fagundes Telles, justamente a respeito da sua colega Lya Luft: “conseguiu ela criar uma obra que é documento social e arte”.)

A abrangência dos serviços da Dona Negrinha, com certeza, se estendiam a diversas famílias santa-cruzenses de todas as classes. Os "bruxedos" da velha senhora negra, moradora em um casa, “quase um barraco”, como lembra a autora nascida em Santa Cruz do Sul em 15 de setembro de 1938, deviam ser afamados. Lya diz que, ao final do ritual, se sentiu “renascida, protegida, para sempre salva”. “As roupas que lhe levavam retornavam com o odor de ervas e fumaça, mas docilmente eu deixava que me vestissem com elas, certa de que já estava curada”, complementa, numa outra recordação da meninice da hoje madura e prestigiada cronista da revista Veja.

Esta amorosa consideração em Mar de dentro, que começa lá na página 76, são indicações de que a presença e influência de personalidades e, mais amplamente, da cultura negra em Santa Cruz do Sul não foram, nem são desprezíveis como muitas vezes se tenta fazer entender. Os saberes curativos oriundos de um África ancestral, passados de geração em geração desde a chegada dos primeiros trabalhadores negros no Brasil, dominado por humildes xamãs – caso desta Dona Negrinha lembrada por Lya –, estavam, já antes dos conturbados tempos da 2ª Guerra Mundial, consolidados na vida social de uma crescente cidade interiorana de forte presença alemã, fundada a partir do povoado denominado Faxinal do João de Faria – aliás, uma referência (pouco considerada) ao sesmeiro em cujas terras "numerosos escravos" labutavam, conforme registra José Bitencourt de Menezes, em seu basilar Município de Santa Cruz, brochura escrita em 1911.

Os vários templos e milhares de pessoas adeptas, que têm – mesmo que esporadicamente – nas cerimônias, rituais e procedimentos religiosos de matriz africana em Santa Cruz do Sul uma fonte de ligação com os aspectos transcendentes e busca de alívio a agruras humanas, afirmam que a pluralidade cultural e a influência afro são fatos incontestáveis. A identidade santa-cruzense, para além de estereótipos, é, desde os primórdios da comunidade, multifacetada, híbrida, produto de diversas contribuições, numa conjunção enorme de fatores e gentes. Isso deveria impedir simplificações e, como aponta o professor Mário Maestri, mitificações – mesmo que para “efeitos turísticos” – que levam a menosprezar determinados grupos étnicos na hora de contar a história do município.

Iuri J. Azeredo

*O texto foi escrito originalmente em 2005 e saiu na imprensa santa-cruzense.

15 de dezembro de 2008

Coca-cola: origens africanas e indígenas


Não nos damos conta de uma série de coisas. Já falei, por exemplo, que há em Santa Cruz do Sul gente que despreza os índios, dizendo que “o lugar deles não é aqui”, propondo que sejam “varridos” do centro da cidade. Mas ao mesmo tempo defende o fumo com unhas e dentes, porque tornou o município um pólo e ainda sustenta sua economia. Pois o tabaco – assim como o milho, o aipim, o amendoim, etc. – são plantas desenvolvidas e milenarmente cultivadas, beneficiadas e consumidas por indígenas, incluindo os que aqui habitaram e cujos descendentes ainda habitam quase invisíveis em alguns rincões e periferias da região, num triste sintoma do desprezo e exclusão sócial.

O próprio chimarrão, símbolo do gauchismo, vastamente consumido, é um chá típico de índios sul-americanos que viviam sem fronteiras entre Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil. Entretanto, aos goles da infusão de erva-mate, a Ilex paraguariensis, continuamos chamando-os de sujos e vagabundos...

Mas há uma outra bebida de fama ainda maior, internacional, que fez surgir uma corporação financeira poderosa e um ícone da cultural globalizada dominada pelo “Tio Sam”. A Coca-Cola, criada em 1886 pelo farmacêutico John Pemberton, é hoje um refrigerante que junta e aproveita-se de propriedades (medicinais e de sabor) de duas plantas tradicionalmente usadas por povos ancestrais, que jamais são lembrados enquanto sorvemos a beberragem. Muito menos, essa gente e seus descendentes, é lembrada na hora da empresa repartir os lucros astronômicos derivados do vasto consumo do composto.

A planta coca vem de regiões de índios da América Latina, e a Cola, de negros do nordeste da África. Regiões hoje extremamente pobres, alvo de histórica exploração político-econômica por parte de europeus e destruição de modos de vida não-capitalistas.

Coca deriva do nome quíchua “kuka”. Segundo informações da Wikipédia, “é uma planta da família Erythroxylaceae, seu nome científico é Erythroxylum Coca. Nativa da Bolívia e do Peru, tem porte arbustivo, suas flores são amarelo-alvacentas, pequenas e aromáticas, solitárias ou reunidas em cimeiras, os frutos drupáceos oblongos, vermelhos, e cujas folhas e casca encerram 14 alcalóides.” Um deles se popularizou através do mercado ilegal: a cocaína. Outros, pelo refresco Coca-Cola, originalmente vendida como remédio. “As propriedades analgésicas da coca foram descobertas pelos incas e até hoje as suas folhas são comumente mascadas na região dos Andes.”

Cola é a planta que produz o fruto conhecido como noz de cola, também chamada de abajá, café-do-sudão, cola, mukezu, obi, e oribi. Também conforme a Wikipédia, há várias espécies do gênero Cole da subfamília Sterculioideae. “Possuindo um gosto amargo e grande quantidade de cafeína, a noz é usada por muitas culturas do oeste africano, tanto individualmente quanto em grupo”. Podendo ter uso ritualístico, “tem ação estimulante, regularizadora da circulação. É também antidiarréica e usada nos casos de anemia, convalescença de doenças graves, problemas estomacais e certas enxaquecas e sobretudo nas perturbações funcionais do coração.” Essas suas propriedades conferiram alto valor à cola e à derivada bebida refrescante tradicional das regiões africanas de extremo calor, após espalhando-se pelo mundo. “O uso difundiu-se na região norte da América Latina através dos escravos negros que mascavam amêndoas de cola para suportar trabalhos penosos.” Hoje os “refris de cola” são disseminados e popularíssimos. Não há, praticamente, nenhum lugar do planeta que não ostente alguma placa do tipo “Beba Coca-Cola”...

Sem retirar o mérito do trabalho de quem “misturou” a coca e a cola, acrescentou açúcar e outras substâncias, gaseificou e começou a vender o líquido gelado engarrafado, podíamos ao menos ter em mente que tal sucesso jamais seria obtido sem ter havido trabalhos e descobertas – sobre as propriedades, variedades, formas de extração, cultivos, beneficiamentos –, hábitos e formas de uso muito anteriores, junto a povos nativos sul-americanos (coca) e africanos (cola). Ou seja, anteriores a toda riqueza dos “donos” da fórmula da Coca-Cola, há índios e negros esmagados por uma perversa concentração de poder, que, para não repartir e continuar sugando e dominando, desvia, fantasia e faz esquecer.

28 de novembro de 2008

Santa Cruz plural desde sempre


Santa Cruz do Sul é pluri-étnica e policultural, tchê! Antes de mais nada, é um município brasileiro, com afluxo de grupos de vários lugares do mundo e do próprio Brasil.

Um dado: 23% da população santa-cruzense é afro-descendente, conforme pesquisas de professores da Unisc.

O nosso município é um projeto do governo provincial, iniciado com o loteamento de florestas dentro da área (enorme) do município de Rio Pardo. A própria cidade, que segue o modelo ortogonal lusitano (usado em outros projetos urbanísticos do império português - caso de Maputo, capital de Moçambique - e depois seguido pelo do Brasil), é obra de um cara chamado Francisco Cândido de Castro Menezes. A denominação original de Santa Cruz era Faxinal do João Faria (referência ao sesmeiro João Faria Rosa), povoado formado muito antes da introdução (subsidiada com recursos estatais), em 1849, de colonos sem terras de países do norte da Europa (à época não existia a Alemanha, aliás).

Precisamos conhecer melhor a história local. Vamos perceber a diversidade de influências culturais compondo a comunidade. Só o fato do chimarrão - uma bebida de índios sul-americanos - ter sido adotado pelos teuto-descendentes, já ilustra o quanto há de interpenetração cultural. Enfim, purismos não existem - a não ser em cabeças muito do fechadas.

Eu acho que várias coisas relacionadas, por exemplo, à "cultura alemã", como a Oktoberfest em Santa Cruz, são quase totalmente artificiais - algo "para turista ver". Nunca houve Oktoberfest no município até os anos de 1980, quando "importou-se" a festa para substituir a FENAF. O que havia eram os kerbs e outras festividades - aí sim - autênticas das comunidades teuto-brasileiras, já em interação com as gentes e cultura(s) gaúcha e do Brasil.

Mas o maior problema que vejo é se construir e referendar a idéia de que "Santa Cruz é germânica", excluindo ou menosprezado outros grupos, outras referências étnicas. Isso é desconhecer a complexidade e amplidão da história local - que é muito mais do que dizem os hinos, monumentos e festas "oficiais".

E não estou menosprezando a fundamental participação dos imigrantes europeus e a cultura teuto-braileira na formação de Santa Cruz. O que eu acho, como tentei dizer, é que o "cultivo da tradição germânica" não pode implicar numa simplificação da história local e a exclusão de outros grupos nas origens, composição e história da comunidade santa-cruzense.

E olha só: em outubro de 1900, chegaram em Santa Cruz do Sul, como colonizadores, 90 CEARENSES, que ocuparam zonas chamadas "serranas" aqui do município. Além de gente do norte da Europa, temos gente do nordeste brasileiro - e de muitos outros lugares!

OBA!!! Venceu OBAma!


Registrou a manchete no portal Terra no dia 5 de novembro de 2008: "Obama é eleito o primeiro presidente negro dos EUA."

"O senador pelo Illinois, Barack Obama, fez na madrugada desta quarta-feira o discurso como vencedor na corrida pela presidência dos EUA. Aos 47 anos, Obama, filho de um queniano e uma americana, é o primeiro negro a ocupar o mais alto posto do governo dos EUA."

"Essa é a resposta para aquelas que tinham dúvidas, e eram cínicas acerca do que poderíamos alcançar na esperança de dias melhores (...). Hoje, pelo que fizemos nesta eleição, a mudança virá para a América", disse Obama.

Para o New York Times , a vitória de Obama foi uma "catarse nacional - o repúdio a um presidente republicano historicamente impopular e suas políticas econômicas e de exterior, e um abraço ao chamado de Obama por uma mudança de direção e de tom do país".

Mas, segundo o meamo jorNAL, este também é um momento simbólico na evolução da "frágil história racial do país, uma ruptura que teria parecido impensável, apenas dois anos atrás".

O Los Angeles Times também comenta a questão racial, lembrando que a vitória de Obama foi um "salto na marcha em direção à igualdade: Quando Obama nasceu, as pessoas com sua cor de pele não podiam sequer votar em algumas partes dos Estados Unidos, e muitos foram mortos por tentar".

Para iniciar o bate-papo


Este é o blog do Grupo de Trabalho pela Promoção da Igualdade Racial em Santa Cruz do Sul - GT-AfroSCS. Está aberto a todas as pessoas, de qualquer (auto) filiação étnico-racial, dispostas a suprimir o racismo e construir uma sociedade onde a população negra não seja objeto de discriminação - algo tão flagrante nos dados socioeconômicos e na valorização cultural.

Em Santa Cruz essa situação é explícita até na localização da esmagadora maioria das famílias afro-descendentes, ou seja, nos bairros com infra-estrutura urbana mais precária e na raridade de negros/as em postos de trabalho com maior remuneração.

Quantos grandes empresários/as, médicos/as e professores/as universitários você conhece atuando em Santa Cruz??? Por quê isso? Eis uma questão que precisa de resposta para além de clichês reacionários!